Chegamos à marca simbólica dos 100 primeiros dias de gestão dos novos prefeitos e vereadores eleitos em 2024. Para alguns, esse período foi de vitrine; para outros, de silêncio. E é justamente aí que mora o risco: em tempos de hiperconexão, quem não comunica, não governa.
A comunicação política nesse início de mandato é mais do que institucional — é estratégica e formativa. É nesse momento que a população começa a moldar sua percepção sobre quem assumiu o poder. E, diferente do que muitos gestores ainda pensam, não se trata apenas de divulgar obras ou despachar releases com frases protocolares. Trata-se de construir narrativa, confiança e presença.
Os 100 dias são a primeira peça do quebra-cabeça
Essa fase inicial tem uma função simbólica poderosa. É nela que o gestor:
Posiciona sua marca e estilo de governar;
Aponta prioridades;
Demonstra (ou não) capacidade de articulação política e técnica;
Começa a gerar credibilidade (ou ruído) na relação com a população e os formadores de opinião.
Nesse cenário, a comunicação se torna o eixo integrador entre expectativa e realidade. O eleitor não espera que tudo esteja pronto — ele espera saber o que está sendo feito, com que recursos, quais os desafios e onde ele entra nessa equação.
Comunicação ausente ou genérica: o erro mais comum
Alguns gestores optaram por não comunicar nada até aqui, alegando que “ainda é cedo para mostrar resultados”. Outros, se limitaram a posts genéricos com frases de efeito, sem ancoragem na realidade. Ambos cometem o mesmo equívoco: perdem a chance de dar sentido à jornada e assumir o protagonismo sobre sua própria história.
O silêncio dá espaço para narrativas alheias. A superficialidade gera desinteresse. E, como diz a máxima do marketing: quem não é percebido, não é lembrado.
O que deve ser comunicado nesses 100 dias?
Não é sobre ter entregas finalizadas — é sobre ter visão, clareza e direção. Veja o que a comunicação pode (e deve) explorar agora:
Abertura da gestão: diagnóstico inicial, escuta da população, visitas às unidades públicas, diálogo com servidores.
Planejamento: ações estruturantes em andamento, revisões de contratos, metas de curto, médio e longo prazo.
Prioridades reais: temas sensíveis enfrentados com coragem e transparência.
Bastidores e humanização: mostrar o trabalho, o ritmo, as reuniões, as articulações.
Marcas visuais e identidade de gestão: como essa gestão quer ser reconhecida? Pela proximidade? Pela eficiência? Pela inovação? A comunicação precisa refletir isso.
Estratégia: não é só o que você diz, é como e para quem
A comunicação institucional precisa ter coerência entre canais, linguagem e público. Falar no Instagram, no rádio local e numa coletiva de imprensa são ações diferentes e devem ser tratadas como tal.
Além disso, os 100 dias são o momento ideal para fortalecer o relacionamento com a imprensa local, organizar coletivas, gravar vídeos explicativos e apostar em uma presença digital bem estruturada — com planejamento, identidade e constância.
Conclusão: ainda dá tempo de virar o jogo
Para os gestores que ainda não se posicionaram, os 100 dias não são um fim, mas um ponto de virada. A partir daqui, a comunicação precisa deixar de ser só informativa e passar a ser estratégica.
Mais do que mostrar ações, é hora de construir sentido, gerar confiança e preparar terreno para os próximos meses — porque quem começa bem, comunica melhor. E quem comunica melhor, governa com mais força.
Mariana Bonjour é advogada e consultora política. Escreve com exclusividade para esta coluna às sextas-feiras









