27 de Março de 2026
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Sexta-feira, 04 de Abril de 2025, 08h:21 - A | A

Mariana Bonjour

Quando a comunicação digital vira prova eleitoral

O caso de Alta Floresta e os limites da influência online

Mariana Bonjour

Rodinei Crescêncio/Rdnews

Mariana Bonjour arte interna coluna vale esta

A recente cassação dos mandatos do prefeito de Alta Floresta (MT), Chico Gamba (União Brasil), e de seu vice, Robson Quintino (MDB), reacende um debate cada vez mais urgente: até que ponto o uso das redes sociais pode ser considerado fraude eleitoral? E mais — quais os limites éticos e legais da comunicação política em ambiente digital?

O motivo da cassação estaria relacionado ao uso indevido de um perfil no Instagram durante a campanha. Embora o processo esteja sob segredo de justiça, a defesa alega que a conta oficial do prefeito teria sido hackeada, e que uma outra página foi cedida a ele como alternativa de comunicação com o eleitorado. A juíza do caso entendeu que houve intenção de ludibriar o público, e que essa conduta teve impacto suficiente para comprometer a legitimidade da eleição.

A lição é clara: profissionalizem suas campanhas, mas também blindem juridicamente suas estratégias

Independentemente do desfecho jurídico (a defesa já anunciou que irá recorrer), esse episódio traz à tona pontos sensíveis da comunicação política contemporânea. Hoje, um perfil em rede social pode ser tão poderoso — e perigoso — quanto um palanque. A internet não é mais um "complemento" de campanha: ela é o próprio campo de batalha eleitoral.

Redes sociais são território estratégico — e legalmente delicado

As redes, principalmente durante o período eleitoral, estão sob a vigilância constante da Justiça. O que antes se resolvia com comícios e santinhos, agora envolve hashtags, impulsionamentos, vídeos editados e, neste caso, a titularidade e uso de perfis.

Uma conta cedida pode carregar engajamento, seguidores e histórico de publicações — mas também pode configurar conduta vedada, abuso de poder econômico ou uso indevido dos meios de comunicação, dependendo do contexto e da intenção.

Se o eleitor foi ou não ludibriado — como alega a sentença — ainda será discutido nas instâncias superiores. Mas o alerta está lançado: não basta fazer uma boa campanha digital. É preciso fazer uma campanha legal, ética e transparente.

A comunicação política precisa de responsabilidade e estratégia jurídica

Esse caso mostra que a comunicação política profissionalizada precisa caminhar lado a lado com o jurídico eleitoral. Ter uma equipe de comunicação experiente já não é suficiente — é preciso também prever riscos, validar estratégias e respeitar os marcos legais que regem o uso da internet em campanha.

A política digital ainda é recente e está em constante construção. Mas há regras claras e precedentes relevantes que devem ser seguidos. Não se trata apenas de "postar", mas de saber o que, quando, onde, como e por quê postar.

Opinião: o que esse caso ensina

A meu ver, mais do que discutir a culpa ou a inocência do prefeito, o caso de Alta Floresta é um alerta para todos que atuam com marketing e comunicação política: a fronteira entre estratégia e infração é muito mais tênue do que parece. E ela pode custar não apenas uma eleição, mas um mandato inteiro.

Para candidatos, assessores e consultores, a lição é clara: profissionalizem suas campanhas, mas também blindem juridicamente suas estratégias. E, acima de tudo, respeitem o eleitor e a sua capacidade de discernimento.

Porque a boa política começa na comunicação — mas só se sustenta na confiança.

Mariana Bonjour é advogada e consultora política. Escreve com exclusividade para esta coluna às sextas-feiras

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