Rodinei Crescêncio

Nos últimos anos, o mundo tem acompanhado com atenção os desdobramentos da crescente tensão entre Estados Unidos e China, que ultrapassa os limites de uma mera guerra comercial e adentra o terreno delicado da guerra fiscal e tributária. A ofensiva norte-americana, inicialmente voltada a conter o avanço chinês em setores estratégicos, rapidamente ganhou contornos mais amplos, afetando diversos países — aliados ou não — e provocando reações em cadeia que escalam para um conflito global de políticas fiscais e tarifárias.
“O Brasil vê uma janela de oportunidade: aumentar exportações para a China em setores como agronegócio, e tentar atrair empresas que buscam fugir da tensão sino-americana. No entanto, essa estratégia requer diplomacia equilibrada e políticas econômicas claras, o que nem sempre tem sido o forte da condução brasileira recente”
Sob o argumento de proteger sua economia e corrigir desequilíbrios no comércio internacional, os EUA passaram a aplicar medidas unilaterais que envolvem sobretaxas, sanções comerciais e reformas fiscais agressivas. Empresas estrangeiras que operam em território americano passaram a enfrentar maior vigilância e novas barreiras fiscais, enquanto os lucros de gigantes norte-americanos em outros países passaram a ser mais rigidamente repatriados, reduzindo a arrecadação de governos estrangeiros.
Essa postura, encarada por muitos como uma "guerra contra o mundo", despertou reações imediatas. A União Europeia, por exemplo, começou a discutir a implementação de uma "taxa digital" voltada a empresas como Google, Amazon e Facebook, em retaliação à fuga de lucros e à baixa tributação enfrentada por essas gigantes em solo europeu. O Canadá e o México também começaram a rever seus acordos fiscais e a aumentar a tributação sobre produtos e serviços de origem americana. A Índia, por sua vez, endureceu sua legislação sobre tributação de serviços digitais.
Mas é a China quem vem adotando a postura mais incisiva. Em resposta direta às investidas dos EUA, o governo chinês ampliou barreiras comerciais, fortaleceu acordos fiscais com países estratégicos e iniciou uma campanha de incentivo à substituição de produtos americanos por alternativas locais ou vindas de parceiros mais alinhados politicamente, como Rússia e Irã. Além disso, Pequim adotou práticas mais rígidas de tributação sobre operações de empresas americanas na China, afetando diretamente os lucros e a operação de gigantes como Apple, Tesla e Boeing.
Diante dessa retaliação, os EUA têm feito tréplicas pontuais — com novas sanções, restrições a investimentos e até mesmo ameaças de exclusão de empresas chinesas do mercado de capitais norte-americano. O cenário resultante é o de um confronto tributário prolongado, em que nenhum dos lados parece disposto a ceder, ainda que o custo global da instabilidade aumente progressivamente.
E o Brasil? Como potência emergente fortemente dependente do comércio com ambos os países, o país sente os impactos diretos dessa disputa. A desaceleração do comércio global pressiona a balança comercial brasileira, enquanto a volatilidade cambial e a incerteza sobre investimentos estrangeiros agravam os desafios macroeconômicos. Ao mesmo tempo, o Brasil vê uma janela de oportunidade: aumentar exportações para a China em setores como agronegócio, e tentar atrair empresas que buscam fugir da tensão sino-americana. No entanto, essa estratégia requer diplomacia equilibrada e políticas econômicas claras, o que nem sempre tem sido o forte da condução brasileira recente.
Em suma, a guerra fiscal entre EUA e China não é apenas uma disputa entre gigantes, mas um jogo geopolítico que reverbera nos quatro cantos do planeta. As consequências vão além das tarifas e balanços comerciais — elas moldam a nova ordem econômica global e impõem aos países emergentes, como o Brasil, o desafio de navegar por mares cada vez mais turbulentos.
Escrito com Sara Nadur Ribeiro
Mauricio Munhoz Ferraz é assessor do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso e professor de economia








