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Maurício Munhoz

Ghibli, IA e Zygmunt Bauman

Maurício Munhoz

Rodinei Crescêncio

 Maur�cio Munhoz - nova arte - coluna s�bado - janeiro de 2023

Nos últimos dias, as redes sociais foram tomadas por uma nova tendência: a edição de fotos no estilo dos filmes do Studio Ghibli, um dos mais icônicos estúdios de animação do mundo. As imagens geradas por inteligência artificial prometem transformar qualquer fotografia em uma cena que remete ao universo mágico de Hayao Miyazaki, diretor e cofundador do Ghibli. O que poderia ser apenas uma brincadeira estética, no entanto, rapidamente se tornou motivo de debate.

No caso das IAs generativas, a responsabilidade não está nos usuários, mas sim nas grandes empresas de tecnologia que desenvolvem esses sistemas e lucram com sua exploração sem considerar adequadamente suas consequências

A ironia dessa trend está no fato de que Miyazaki sempre foi um crítico ferrenho da tecnologia e de sua interferência na arte. Em entrevistas, chegou a descrever a inteligência artificial como algo desumano e grotesco, declarando que a animação deveria permanecer um trabalho essencialmente manual e artístico. Agora, seu próprio estilo é replicado por ferramentas de IA sem sua autorização, uma forma clara de apropriação indevida e, em muitos casos, plágio.

Apesar da problemática envolvida na reprodução não autorizada do traço do Studio Ghibli, uma parte considerável do debate nas mídias tradicionais tem se voltado para um alvo peculiar: o usuário comum. Diversas manchetes em jornais e sites de notícias responsabilizam os indivíduos por aderirem à trend, argumentando que cada imagem gerada por IA consome grandes quantidades de água e energia elétrica, impactando negativamente o meio ambiente. Frases como "não faça essa trend, veja o quanto sua foto custa para o planeta" viralizaram, sugerindo que a responsabilidade pela crise climática recai sobre aqueles que participam de um fenômeno digital passageiro.

Esse tipo de narrativa encaixa-se perfeitamente na crítica feita por Zygmunt Bauman à modernidade líquida, onde os grandes problemas sociais e ambientais são deslocados para o indivíduo, enquanto os verdadeiros responsáveis permanecem intocados. No caso das IAs generativas, a responsabilidade não está nos usuários, mas sim nas grandes empresas de tecnologia que desenvolvem esses sistemas e lucram com sua exploração sem considerar adequadamente suas consequências. São essas corporações que deveriam ser cobradas pela transparência de seus processos e pelo impacto ambiental de suas tecnologias.

Além disso, a falta de regulamentação governamental permite que essas ferramentas operem sem diretrizes claras sobre direitos autorais e sustentabilidade. Em vez de criminalizar quem participa da trend, seria mais produtivo exigir que governos imponham normas para o desenvolvimento e uso da inteligência artificial, garantindo que seu impacto social, ambiental e artístico seja minimizado.

Enquanto a culpa recai sobre quem apenas usa a tecnologia disponível, as empresas continuam lucrando e os legisladores seguem omissos. Regular o uso da IA é essencial, mas essa regulação precisa ter como alvo os verdadeiros responsáveis. A narrativa que transfere o peso das grandes crises para os indivíduos apenas perpetua um ciclo de culpa e inércia. Como sociedade, precisamos questionar quem realmente tem o poder de mudar as coisas – e cobrar deles a responsabilidade que lhes cabe.

Escrito com Sara Nadur Ribeiro

Mauricio Munhoz Ferraz é assessor do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso e professor de economia

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