Assim como os humanos, os animais necessitam de ambientes adequados para terem um desenvolvimento saudável. Diante disso, uma pesquisa desenvolvida pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Agrossilvipastoril, sediada em Sinop (a 480 km de Cuiabá), apontou que a presença de florestas nas pastagens favorece a produção hormonal de bezerras, fazendo com que elas fiquem aptas a emprenhar mais cedo.
Mylene Dias

A cooperação da floresta com o pasto está inserida no conceito de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), estratégia que utiliza diferentes sistemas produtivos dentro de uma mesma área. No caso da pesquisa da Embrapa, os resultados deram origem ao Sistema PPS – Precocidade, Produtividade e Sustentabilidade –, que prevê a desmama das bezerras em áreas sombreadas.
Nesse período da vida das bezerras, elas passam por maior estresse devido à separação das mães. Esse estresse afeta a produção de hormônios sexuais, assim como o humor e o peso do animal. Para o médico-veterinário e autor da pesquisa, Luciano Lopes, é necessário prezar pelo bem-estar do animal, visando à sua reprodução.
“O estresse gerado pelo calor provoca uma série de alterações comportamentais e fisiológicas no animal. Por exemplo, se o animal está agressivo ou estressado, ele não vai comer capim. Com isso, perde massa muscular e, consequentemente, peso. Para que eu tenha um melhor ganho de peso, preciso proporcionar um ambiente propício para que ele se alimente conforme o cronograma. Quanto mais esse animal consome, maior será o ganho de peso. No aspecto fisiológico, de forma geral, todos os hormônios da vaca caem. Se ela não tem hormônios, não há gatilho para ovular, o que atrapalha a concepção e a fixação do embrião no útero”, detalha.
“O estresse gerado pelo calor provoca uma série de alterações comportamentais e fisiológicas no animal. Por exemplo, se o animal está agressivo ou estressado, ele não vai comer capim. Com isso, perde massa muscular e, consequentemente, peso”
Explica o veterinário autor da pesquisa, Luciano LopesDessa forma, no Sistema PPS, as bezerras permanecem na área de ILPF por cerca de seis meses. Nesse período, o ambiente com a sombra das árvores proporciona conforto térmico, o que favorece a produção de hormonas sexuais.
“O sistema Integração-Pecuária-Floresta é mais interessante para a produção de hormônios. Nesse caso, o indicador de precocidade sexual, o IGF-1, fica mais alto quando os animais estão sombreados, ou seja, no sistema ILPF. Isso nos revela um padrão na parte hormonal, porque eles respondem de maneiras diferentes conforme o nível de conforto ou de estresse. No estresse, há secreção de cortisol, hormônios antagónicos, que desregulam a parte reprodutiva”, esclarece Lopes.
Além da reprodução
Além dos benefícios para o potencial reprodutivo, a arborização das pastagens também favorece a saúde das bezerras, aumentando a imunidade delas.
Sem estresse e com menos problemas de saúde, o ganho de peso desses animais é facilitado, fazendo com que ganhem, em média, 0,6 kg por dia com ração concentrada e suplementação. Para a primeira fecundação, Luciano explica que as bezerras, assim que se tornam novilhas, precisam ter um corpo robusto para a reprodução.
“O peso do bovino tem uma relação muito próxima com a intenção reprodutiva. Existe uma dependência do animal pré-púbere entrar na vida reprodutiva já pesado, com gordura corporal. Não basta ter idade, o organismo precisa de outros fatores desenvolvidos, como uma boa nutrição, para que o ciclo reprodutivo se inicie”, explica.
Com isso, as bezerras são transferidas para o sistema ILP, voltado para a engorda, com o objetivo de serem fecundadas com peso mínimo de 310 kg. Mesmo após estarem prenhas, as vacas permanecem no ILP, pois ainda estão em fase de crescimento e ganho de peso.
Coabitação dos sistemas produtivos
O ILPF é um sistema que busca aumentar a produtividade de uma área ao incluir diferentes sistemas produtivos. Apesar de parecer estranho para alguns produtores, certos consórcios podem coexistir, favorecendo o faturamento da propriedade.
Reprodução/Acrimat
A 1ª propriedade rural a usar a estratégia foi a do produtor Arno Schneider, há 20 anos
Em Mato Grosso, a primeira propriedade rural a implementar a estratégia foi a do produtor Arno Schneider, há 20 anos. Gaúcho, ele escolheu Santo Antônio do Leverger (a 33 km de Cuiabá) para unir o cultivo de teca e eucalipto às pastagens. Após a experiência, Arno avalia que o equilíbrio entre os sistemas favorece tanto o bolso do produtor quanto o meio ambiente.
“Eu aumento a minha produção dentro de um mesmo hectare. Na pecuária, isso é ainda mais evidente, porque é muito criticada pela emissão de gases de efeito estufa. Mas, com a adição de árvores, a pegada de carbono é significativamente reduzida. A atividade torna-se sustentável e rentável”, comentou Schneider.
Dentro do ILPF, o PPS destaca-se pela versatilidade, pois também prevê o gerenciamento das novilhas e das vacas multíparas dentro do sistema. A depender do objetivo do produtor, é possível destinar algumas bezerras ou matrizes para a engorda e, consequentemente, para a venda para abate.
O PPS foi desenvolvido no âmbito do programa de pesquisa sobre ILPF da Embrapa. Durante mais de dez anos de investigação, a organização contou com o apoio da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), da Associação dos Criadores do Norte de Mato Grosso (Acrinorte) e da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).








